Sentidos (e circuitos) polticos da arte:
Afeto, crtica, heterogeneidade e autogesto entre tramas
produtivas da cultura
(go to goto – EPA! Curitiba, 16/09/05)
Contextos
O deslocamento da produo artstica do campo estritamente
especfico de suas linguagens para o ambiente ampliado das relaes culturais
j foi enunciado como sendo uma passagem da arte do campo esttico para o
poltico (Cildo Meireles, 1970) :
(...) uma vez que o que se faz hoje tende a estar mais prximo da cultura do
que da arte, necessariamente uma interferncia poltica. Porque se a esttica
fundamenta a arte, a poltica que fundamenta a cultura.
Entretanto, o reducionismo de algumas interpretaes insiste
em tentar delimitar temporalmente a arte poltica contempornea como arte de
protesto e engajamento na luta contra ditaduras, datando-a como um repertrio
caracterstico dos anos 60 e 70 na Amrica Latina . No Brasil essa retrica
predominou entre meados dos anos 80 e 90, acompanhando a moda cultural da arte
pela arte, ou a retomada das estratgias com tendncias formalistas,
enaltecendo assim a produo artstica descompromissada de seu entorno social.
A volta pintura, a ascenso do mercado de arte como parmetro da produo
artstica, a crescente valorao social de curadores em detrimento de artistas,
o afastamento do Estado de sua responsabilidade direta na definio de
polticas culturais e a multiplicao de eventos de arte vinculados ao
marketing cultural de grandes empresas (a grande maioria delas usando Leis de
Incentivo Fiscal) so desdobramentos dessa tendncia iniciada nos anos 80.
Deu-se, em grande medida, um retorno aos interesses e s regras do mercado de
arte e ao seu sistema tradicional de constituio e funcionamento, depois de
anos de experimentalismo artstico radical dos 60/70. Sincronicidades:
multiplicao do poder de empresas multinacionais, neoliberalismo geral,
mercado e comunicao global, era Margareth Tatcher; privatizaes em ritmo
alucinado e, no Brasil, financiadas pelo prprio Estado; queda do muro de
Berlim, esfacelamento do bloco Sovitico, crise das perspectivas e teorias
socialistas; individualismo, yiuppies... poca em que se ouviu ecoar idias
como a utopia acabou ou ainda no h mais uma perspectiva poltica de
atuao pois vivemos num mundo de fragmentao social... Considerando essa
anlise histrica pode-se entender alguns fundamentos de afirmaes como arte
poltica coisa dos anos 70 ou o que define a arte o mercado: algo de
oportunismo e engajamento neoliberal fica no ar, e finca razes.
Para alm do reconhecimento do valor das poticas
subversivas e contestatrias dos anos 60 e 70, as quais construram-se
simultaneamente no experimentalismo da linguagem, fato que os sentidos
polticos da arte revelam outras contextualizaes complexas e diversificadas.
Observao esta, alis, j sabida por muitos dos artistas daquele perodo, os
quais foram os primeiros a teorizar sobre, inclusive, juntamente com alguns
crticos. Da mesma forma como o conceito e as prticas polticas so
reinventadas ao longo das histrias e geografias, tambm as concepes
polticas da arte so recriadas, vindo a constituir distintas estratgias de
insero e contextualizao da arte nas tramas sociais: a arte de crtica
institucional, o artista/curador, o engajamento social e ecolgico e os fluxos
coletivos so algumas das possibilidades dessa concepo.
Da arte poltica poltica para as artes, h um vasto campo
de realidades. A situao extrapola a questo estritamente temtica, e tambm
no se restringe a pensar o poltico como algo atrelado relao com o Estado
ou partido poltico. A arte insere-se dentro de programas governamentais de
poltica cultural, e de projetos no governamentais. A arte usada como
instrumento de poder econmico e propaganda. Pode tornar-se propriedade
particular e tambm objeto de ostentao social. A arte pode ser deflagradora
de novos comportamentos sociais. Pode mudar rumos de polticas pblicas feitas
tanto pelo Estado quanto por empresas privadas. Pode afirmar polticas
prprias. Por fim, sabe-se que toda arte torna-se poltica quando situada nas
relaes da cultura, da qual, consciente ou inconscientemente, sempre far
parte.
Muitos podem ser os sentidos polticos da arte, suas
questes e implicaes estratgicas: os significantes crticos do lugar onde a
obra se inscreve – os limites crticos; a reprodutibilidade tcnica; a
insero no cotidiano; o uso de cdigos culturais em detrimento dos
exclusivamente artsticos; o trnsito do artista e da arte por diferentes ethos
de uma sociedade – a mediao cultural; as relaes entre os circuitos
artsticos e os mercados de arte; a arte e a libertao comportamental; a alta
e a baixa cultura; a indstria cultural; questes entre arte X culura, esttica
X poltica, forma X contedo; questes envolvendo realidade e simulacro; os
microclimas polticos e produtivos; a desacelerao e a importncia da
reconstituio de memrias coletivas; as histrias da arte; a autogesto da
produo artstica.
Poltica passa a ser tambm a capacidade de instaurao de
distintos circuitos de arte, sejam os espaos ou fluxos de circulao da
produo gerenciados por coletivos de artistas ou os trabalhos artsticos
construdos a partir da participao criativa. Isso pensando naquele sentido
mais fundamental do termo poltico, como evidenciado por Hanna Arendt , da
capacidade de dilogo do indivduo com o coletivo, do dilogo fundado no
interesse e bem comuns. Os espaos e fluxos autogeridos podem assemelhar-se
processualmente a programas de poltica cultural de instituies: agenda de
eventos, curadorias, textos e edies grficas, debates, etc. Entretanto, as
produes artsticas, estratgias e contedos crticos dos circuitos
autodependentes geralmente so
distintos dos do circuito tradicional: afirmam outros artistas, idias e
processos. Ainda assim, o trnsito dessa arte e de seus agentes pode ocorrer em
ambos os circuitos, tradicionais e autodependentes.
Hoje existe um nmero significativo desses circuitos no
Brasil. uma intensificao poltica no campo das artes, pois a liberdade e
autonomia do agir esto em prtica. E h um certo desvencilhamento dos
formatos, lugares, processos, prazos, hierarquias e interesses cultivados pelas
relaes institucionais tradicionais. No Brasil do final dos anos 90 esses circuitos
autogeridos comearam a ter uma maior visibilidade dentro do meio artstico,
vindo a ser denominados habitualmente de coletivos de artistas, circuitos
independentes ou arte de ativismo cultural. Foram sendo construdos em
distintos lugares a partir de diferentes motivaes e desdobramentos
histricos. Entre esses pioneiros esto o Arquivo Bruscky (atuante desde os
anos 70), Torreo (desde 93), Arte de Portas Abertas e Interferncias Urbanas,
Galeria do Poste, Agora, Capacete, CEP 20.000 e Almanaque, Museu do Boto
(desde 84), Camelo e Linha Imaginria. Depois surgiram o Alpendre, Atrocidades
Maravilhosas e Zona Franca. E a estes, seguiram-se outros.
Conceitos
Diferente de conceber esse fenmeno como uma ampliao do
circuito – indicando os novos circuitos surgidos como fazendo parte de
um mesmo sistema de relaes – essa dinmica pode ser compreendida como a
prtica de circuitos heterogneos , aproximando-os ao pensamento de Alain
Badiou: estratgias polticas heterogneas colocam-se frente coletividade
definindo seu prprio lugar e tempo, manifestando processualmente nesse dilogo
suas caractersticas singulares. Para o filsofo, a defesa da heterogeneidade
transforma-se no foco principal de resistncia e reivindicao poltica na
contemporaneidade. No basta opor-se a uma poltica predominante estabelecida
pelo Estado ou pelo mercado global, aceitando seus tempos, lugares e
parmetros. Torna-se necessria a afirmao das singularidades culturais das
coletividades, fazendo valer outras necessidades e desejos a partir desse
dilogo entre indivduos e coletivos e as sociedades. Esse sentido poltico
imbrica-se na prpria existncia, como analisa Pierre Bourdieu: os sistemas
simblicos, que um grupo produz e reproduz no mbito de um tipo determinado de
relaes sociais, adquirem seu verdadeiro sentido quando referidos s relaes
de fora que os tornam possveis e sociologicamente necessrios .
As
conceituaes sobre multido, valor e afeto e empreendedor biopoltico
enunciadas por Toni Negri podem
somar idia de circuitos heterogneos. Na atualidade, a concepo de multido
muito diferenciada da do incio do sculo XX. A multido no mais uma massa
operria, no pode mais ser apreendida por um discurso de classes, no mais
homogeneamente desinformada, ou praticamente analfabeta. Tambm no se vive
mais num mundo onde a elite econmica apresenta-se como exclusiva elite
cultural. A multido hoje tornou-se diversificada e mais instruda, est
potencialmente apta a propor polticas e dinmicas prprias dentro da
sociedade. Em valor e afeto, as relaes afetivas entre pessoas e grupos so
percebidas como possibilidades revolucionrias para a construo de tramas
produtivas: so potencialidades de transformao, investimentos de desejo a
construir uma comunidade entre os sujeitos . E o empreendedor biopoltico
ps-moderno do qual fala Negri algum que consegue articular ponto por ponto
as capacidades produtivas de um contexto social, sujeito que organiza o
conjunto das condies de reproduo da vida e da sociedade, e no somente a
economia. E esse empreendedor produtivo est em oposio a todas as teorias
capitalistas do empreendedor parasita
.
O
empreendedor total que vela essencialmente pela construo de uma trama
produtiva tambm assemelha-se ao
conceito de autor produtor de Walter Benjamin, no qual j se percebe como
imprescindvel o rompimento de barreiras entre as foras produtivas materiais
e intelectuais . Segundo Benjamin Buchloh, o autor produtor benjaminiano
deve, antes de tudo, dirigir-se estrutura modernista de produtores isolados
e tentar converter a posio do artista como fornecedor de bens estticos em
uma fora atuante na transformao do aparato ideolgico e cultural existente
. Benjamin diz ser preciso orientar outros produtores em sua produo,
disponibilizando-lhes um aparelho mais perfeito, mensurvel pela capacidade
de transformao de leitores ou espectadores em colaboradores .
A diluio dos limites entre artista e pblico foi tambm
conceituada e praticada por artistas, com antecedentes que remontam ao
dadasmo, e principalmente, a boa parte da arte dos anos 60 e 70, como que em
sintonia orientao libertria bsica todo ser humano um artista . Hlio
Oiticica tambm percebeu que o artista deveria se desdobrar em mltiplos campos
de atuao: o territrio da ao artstica havia se tornado um campo expandido
– fsica e ideologicamente – e o ato artstico podia incidir
diretamente sobre os processos de produo coletivos: O grande artista (...)
pode tambm assumir o papel de empresrio, educador e proposicionista, criando uma condio ampla
de participao popular nessas
proposies abertas . Convergiu para essas idias tambm o crtico e curador
Frederico Morais: No se trata de levar a arte (produto acabado) ao pblico,
mas a prpria criao, ampliando-se, assim, a faixa de criadores de arte mais
do que de consumidores de arte. A arte no propriedade de quem a compra, a
coleciona e, no limite, de quem a faz. A arte um bem comum do cidado . Os
circuitos artsticos heterogneos produzem no somente arte como tambm novos
artistas.
Esses circuitos dialogam com a idia da Zona Autnoma
Temporria de Hakim Bey –
TAZ – acrescentando o fator efemeridade ao desejo revolucionrio. Pois
no se quer mais uma revoluo perene e totalizante como se quis na
modernidade. TAZ uma ao localizada, uma insero social originada em
necessidades especficas, propiciando vivncia, conhecimento, transformao e
memria a seus participantes. Podendo, pois, findar. E ressurgir, com outra
configurao.
A liberdade de atuao gerada com os circuitos heterogneos
pode caracterizar uma atitude de insubordinao e resistncia cultural frente
ao monoplio da consagrao e ao mercado, como diz Pierre Bourdieu . Surgindo
da a possibilidade de articulao mais agressiva de contedos crticos.
Reflexes geradas em vivncias explicitamente polticas
dialogam com o sentido poltico dos circuitos artsticos. Certas identidades
revolucionrias de ex-militantes da luta armada no Brasil transformaram-se,
migrando de uma macropoltica pelo Estado para uma perspectiva aplicada ao
cotidiano, no compartilhamento de valores e na afirmao de um ethos no corpo
social. Vera Silvia Magalhes, radical protagonista dessa histria, nomeia essa
mudana de paradigma poltico como micropoltica do afeto .
Micropoltica
do afeto, biopoltica produtiva, poltica heterognea, circuitos artsticos
heterogneos: algo de uma necessidade comum em relao a vida traspassa a arte,
a filosofia e a poltica de nosso tempo.
Estratgias
Algumas tticas desses circuitos artsticos tornam-se
recorrentes: disponibilizao de espaos fsicos prprios para a manifestao
da arte; delimitao de reas urbanas e outros sites para performances e
intervenes; ocupao de espaos institucionais com programao prpria de
atividades – a partir de curadorias e agenciamentos coletivos feitos por
artistas; organizao de encontros, debates e mostras; apoio produo de
trabalhos; criao de estratgias diferenciadas de sustentabilidade econmica;
elaborao e publicao de textos crticos, relatos e registros de aes em
revistas impressas ou eletrnicas; estabelecimento de programas de intercmbio
entre artistas; criao de arquivos de documentos e vdeos. Enfim, prticas que
afirmam uma real perspectiva de autogesto social da informao e da produo
artsticas.
No
Brasil h circuitos que priorizam o lugar como o instigador de intervenes,
constituindo-se a partir de relaes especficas com a arquitetura, urbanismo,
geografia e contexto sociocultural, a exemplo do Torreo (Porto Alegre),
Galeria do Poste (Niteri) e Interferncias Urbanas (Arte de Portas Abertas,
Santa Teresa, Rio de Janeiro), Rs-do-Cho (Rio de Janeiro) . Outros investem principalmente
no acontecimento temporal, criando programaes que favorecem performances,
aes, mostras de vdeo, projees de slides, intervenes sonoras, etc.
Adequando-se at a diferentes espaos, estes acontecimentos podem ter uma
periodicidade varivel, ou mesmo ocorrer uma nica vez: CEP 20.000, Zona
Franca, Acar Invertido, todos no Rio de Janeiro, esto entre alguns dos mais
intensos acontecimentos do gnero . H circuitos que propem aes com
caractersticas formativas e didticas, constituindo acervos at, e fazendo do
debate e do repasse de informaes um complemento poltico frente ao meio
artstico e sociedade. Dentre esses, Arquivo Bruscky (Recife) e Torreo (Porto
Alegre) so os que geram as aes com maiores repercusses culturais. O Capacete
tambm destaca-se nessa atuao, assim como, enquanto existia, o Agora, ambos
do Rio de Janeiro; e ainda o Centro de Contracultura (So Paulo) . Enquanto
outros coletivos constituem parcerias constantes entre seus componentes,
formando grupos de artistas, os quais propem seus tempos e lugares de agir,
por vezes num processo de criao coletiva .
H propostas que funcionam como extenses diferenciadas de
algumas instituies culturais, principalmente universitrias , exercendo
autonomia em suas aes. Por outro lado, inseres artsticas de crtica
institucional problematizam criativamente o sistema das artes e seus
procedimentos – curatoriais, processos seletivos, poltica cultural e
envolvimento social. Neste sentido, trabalhos como Vazadores, de Rubens Mano;
Projeto Camel, do grupo spmb (Eduardo Aquino e Karen Shanski); Foi um Prazer,
de Jac Leirner; Panorama 2001, de Carla Zaccagnini; e minha proposta Ocupao,
so projetos que radicalizam alguns procedimentos .
Alguns grupos de artistas atuam atravs de mltiplas
estratgias e em vrios lugares para a ao, por vezes fundados no humor e na
ironia social . Enquanto outros diluem ainda mais as bordas entre arte e
cultura, a exemplo das aes artsticas coordenadas junto a movimentos sociais
radicais, ou a grupos de excludos, ou geradas em comunidades culturais
especficas e sociedades alternativas. O movimento Integrao sem Posse, em
So Paulo, e o projeto Casina, de Carla Vendrami, envolvem-se mais diretamente
nesses ambientes de conflito social .
Circuitos efetivam-se tambm entorno de reflexes e prticas
sobre mdias: internet, vdeo, sites comunitrios, blogs, tvs e rdios livres,
revistas eletrnicas e impressas, cartazes de rua. Esses veculos tornam-se
redes prioritrias para a gerao de informao e circulao de idias,
fomentando as produes independentes e a reflexo crtica sobre os meios de
comunicao de massa, propagando tambm conceitos como copyleft, software
livre, incluso digital, Net & Radio Ativismo. No campo da guerrilha
artstico/cultural miditica as aes de A Revoluo No Ser Televisionada
(So Paulo); Atrocidades Maravilhosas e PHP (Rio de Janeiro); Noninoninoni
(Recife); Yiftah Peled com Performance em outdoors (Curitiba/Florianpolis); e
Ari Almeida & outros membros do delinquente.bloger (Curitiba) provocaram
(provocam) uma importante frico social crtica sobre a mdia de massa;
enquanto CORO e Rizoma.net (ambos de So Paulo) e Canal Contemporneo (Rio de
Janeiro) so importantes e
distintas redes de trocas de informaes .
Para alm da autogesto artstica de espaos e programaes,
outra possibilidade poltica para os circuitos heterogneos efetiva-se em
propostas individuais que tornam-se circuito quando construdas na
participao, principalmente na participao criativa, gerando uma aproximao
mais pessoal com o outro. Essas so orientaes processuais encontradas na
base de vrios trabalhos da dupla Maurcio Dias e Walter Riedweg, em Ricardo
Basbaum (NBP – Novas Bases para a Personalidade, Eu/Voc) e Giordani Maia
(TCAS – Tentativa de Construo e Aplicao de Sistemas) .
H distines entre modalidades de arte, obras-circuito e
circuitos heterogneos. Land art e vdeo arte, por exemplo, so estratgias to
ampliadas enquanto possibilidade de investigao conceitual e esttica que
podem ser entendidas antes como modalidades artsticas a circuitos. Entre as
modalidades mais freqentemente capazes de comportar uma carga de identidade
coletiva e afirmar um circuito esto a arte postal, a net.arte e as revistas de
arte. J as obras-circuito so propostas muito especficas a evidenciar com
preciso um determinado circuito, potencializando a tal extremo sua existncia
ressignificativa que acabam por esgot-lo enquanto possibilidade para novas
investidas e participaes, como que tornando o circuito uma obra nica. Como
exemplo, Cowboy com cigarro, de Hans Haacke, ou Eppur si muve, de Cildo
Meireles . Os circuitos heterogneos situam-se numa esfera de acontecimentos na
qual percebem-se caractersticas mais particulares associadas a um grupo, lugar
e tempo. No so, necessariamente, vinculados a uma categoria ou especificidade
de arte. Esto, diferente disso, abertos a multipadronagens culturais , so
supra-linguagens. So circuitos constitudos geralmente no agenciamento
coletivo e em redes de afinidades, criando um campo singular e aberto
participao.
Histria
Antecedentes dialogam com os contemporneos circuitos. No
Brasil, a experincia da Semana de 22 e a revista Klaxon foram aes culturais
constitudas como evento independente e veculo de circulao de idias,
gerando circuitos e promovendo uma primeira grande ruptura na arte brasileira:
o Modernismo. Quase na mesma poca, o msico, pintor, xam, anarco-socialista,
pacifista e visionrio Lechowski inseria nas praas pblicas sua estratgia de
circuito para amostragem de suas pinturas: o Cineton : tenda desmontvel, museu nmade. Com ela partiu para dar a
volta ao mundo, viajou por cidades da Europa, iniciando por sua terra natal,
Varssia, em 1925. Chegou ao Brasil, onde teve passagens por Curitiba, So
Paulo e Rio de Janeiro, cidade essa na qual passou a morar, at a morte. Foi um
dos fundadores do Ncleo Bernardelli. Lechowski buscava um contato direto com o
pblico, concebia a arte como experincia e conhecimento a ser compartilhado.
No vendia sua obra, no queria que ela fosse propriedade de algum. Ao invs
disso, considerava-a de utilidade pblica, propondo a si mesmo uma
alternativa de sobrevivncia, atravs da arte, cobrando ingressos para a visitao
das exposies de seus trabalhos. Desenvolveu outros projetos inovadores, como
os vrios mostrurios desmontveis e at manipulveis, construdos para a
exposio simultnea de diversas pinturas. Toda a obra de Lechowski convergia
para um projeto ainda maior, a Casa Internacional do Artista, o ninho onde
dever renascer e se reabilitar a pura concepo do valor da Arte para a
humanidade, e da misso que os artistas, filhos de todos os povos e irmos
ntimos por sua vocao, devem desempenhar no presente para o Futuro.
Contextualizando com preciso algumas relaes do circuito artstico,
articulando com independncia a circulao pblica de sua obra e concebendo de
forma ampliada e libertria o lugar social do artista, Bruno Lechowski pode ser
considerado o precursor dos circuitos heterogneos no Brasil.
E para alm desses antecedentes, outras tantas aes e
movimentos podem ser lembrados como uma base polifnica de dilogo e memria
produtiva: dadasmo (especialmente o de Berlim: John Hearthfield, as revistas
Dada, etc ), Construtivismo Russo, Bauhaus, Experincia n 2 e New Look, de
Flvio de Carvalho (1931 e 1956); Revista Joaquim (Curitiba, 1946 e 47), os
grupos Cobra, MADI, GRAV, Fluxus, Coletivo de Arte Sociolgica, Art-Language;
Parangols de Hlio Oiticica; Opinio 65; 7.000 Carvalhos, de Beuys, entre
outras de suas aes de arte ativista fundada no conceito de escultura social;
Caminhando de Lygia Clark; Do Corpo Terra (Belo Horizonte, 1970), Domingos da
Criao (Rio de Janeiro, 1971), Sbados da Criao (Curitiba, 1971/1972),
Prospectiva e Poticas Visuais (MAC-USP, 1974/1977), Inseres em Circuitos
Ideolgicos, de Cildo Meireles; Trouxas ensangentadas, de Arthur Barrio; Porco
Empalhado, de Nelson Leirner; Corpobra, de Antnio Manuel; os coletivos Grupo
Rex, 3Ns3 e Manga Rosa (So Paulo); Arquivo Bruscky e as mostras coletivas de
arte-postal, fotos 3X4 e filmes super-8 (Recife); intervenes em outdoor, de
Nelson Leirner (So Paulo, 1968), e as coletivas em outdoor Arte Paisagem
(Curitiba, 1977), ArtDoor (Recife, 1981 e 82), em Porto Alegre, e em So Paulo
(1982 e 83); Espao Nervo tico e Terreira da Tribo (Porto Alegre); NAC (Joo
Pessoa), Visorama (Rio de Janeiro), os coletivos livros-processo de ngelo de
Aquino e Paulo Bruscky; E ainda os Encontros de Arte Moderna (1969-1974),
ArtShow (1978), os grupos Moto Contnuo e Sensibilizar (1983 e 84), o coletivo
Museu do Boto (desde 1984), aes estas (as ltimas) todas ocorridas em
Curitiba. Etc.
Com a histria assim interligada fica claro o quanto a
produo artstica capaz de buscar novas configuraes relacionais crticas
com o entorno social, transcendendo limites temporais e geogrficos,
reconceituando permanentemente a si mesma como uma possibilidade poltica.
Assim, mesmo os anos 80, pontuados como um perodo da volta pintura, no
devem ser assim simplificados, ainda que essa tendncia e a mercantilizao da
arte tenham predominado. Alm disso, muitos artistas atuantes no contexto dessa
gerao e na transio para os anos 90 foram os primeiros a empreender algumas
das mais ressonantes aes dos circuitos heterogneos no Brasil contemporneo ,
fenmeno esse tambm verificado mundialmente .
Perigos e potencialidades
Sentindo a gua batendo na bunda, como dizemos aqui da low
culture, instituies culturais, museus de arte, crticos e at galeristas do
establishment voltam seus olhares sobre o tema arte e poltica, muitos dos
quais sendo os mesmos interlocutores que taxavam tal possibilidade como datada,
ultrapassada, algo menor. H excees, claro, pessoas com lastro histrico.
Entretanto, a aparente guinada se deve, primeiramente, a uma nova tentativa de
manuteno e controle sobre o discurso artstico e a mediao social da arte.
Tudo com uma boa dose de hipocrisia. D para imaginar at a empresa
BrasilConnects promovendo uma mega exposio sobre arte brasileira de cunho
poltico na Bienal de Veneza, acompanhada de um coquetel de Primeiro Mundo...
POP-nos dessa!
Pelo lado dos artistas importante lembrar que instaurar
circuitos artsticos e coletivos pode significar pouco ou nada quando isso no
for resultado de uma postura crtica e de uma real necessidade coletiva. O
maior risco para os circuitos heterogneos ocorre quando essa possibilidade
torna-se mero estilo: esteticizao da poltica ao invs da politizao da
arte. Coletivos por coletivos, assim como arte pela arte... Neonazis e grupos
empresariais de Sociedade LTDA tambm formam coletivos. Se algo que haveria de
ser uma resistncia crtica articulada terica e materialmente na sociedade
torna-se uma mera diferena fabricada, uma resistncia fake, de fcil
assimilao no vale tudo contemporneo, como anotou Hal Foster , ento as
armadilhas sociais esto mais sutis e sofisticadas. Se s o estilo prevalece,
desprovido de valores, os circuitos heterogneos transformam-se em circuitos em
bionecrose, meros trampolins para visibilidade nas mesmas redes de poder do
sistema tradicional. Alm disso, a moda da multiplicao de coletivos pode
instaurar at uma passiva supresso do indivduo em nome da coletividade, como
numa ditadura do processo coletivo. Ou ainda, pode vir a fomentar guetos
culturais, grupos de eugenia, sem trocas simblicas com a sociedade. E a, alm
da constatao de que a revoluo no vai ser televisionada, chegamos ao ponto
onde ela nem se quer ser desejada. a tanto faz generation. Pois o negcio
passa a ser atirar pra qualquer lado, se dar bem, emplacar, ser mapeado! Born
to be famous . Sorry, sorria.
Envoltos no aquecimento de uma desesperana global –
entre guerras, intolerncia, imprios, mercados, concentrao de riquezas e
muita corrupo – entretanto atentos aos porns espreita e focados na
potncia da ao crtica e emancipadora, os circuitos artsticos heterogneos
PODEM SER uma perspectiva radical de resistncia e proposio cultural: na
quebra de paradigmas vinculados a noo de centro e periferia; na afirmao de
alternativas ao controle institucional sobre o discurso; na autonomia de dilogo;
na construo de novas relaes econmicas, na transversalizao de
autoreferencialidades (Felix Guattari); na proposio de diferentes modos de
conscincia e convivncia. Essa a superfcie tencionada e a arena poltica
na qual circula a art action.